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PÚBLICO – POLICIÁRIO Publicação: “Público” Coordenação: Luís Pessoa Data: 9 de Janeiro de 2011 |
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Campeonato Nacional 2011 Taça de Portugal 2011 Prova 1: Tradicional +
Múltipla Prova 2: Tradicional +
Múltipla Prova 3: Tradicional +
Múltipla Prova 4: Tradicional +
Múltipla Prova 5: Tradicional +
Múltipla Prova 6: Tradicional +
Múltipla Prova 7: Tradicional +
Múltipla Prova 8: Tradicional +
Múltipla Prova 9: Tradicional +
Múltipla Prova 10: Tradicional +
Múltipla |
CAMPEONATO NACIONAL 2011 TAÇA DE PORTUGAL 2011 PROVA Nº 1
(TRADICIONAL) MISTÉRIO
NO PARAÍSO Autor:
Al-Hain A criminalidade já
está tão desenvolvida e com tanta falta de espaço cá neste recanto do
universo, que até já se expandiu para o paraíso onde criminosos que por cá morrem
vão continuar as suas tropelias num outro mundo onde teoricamente tudo
deveria ser paz e harmonia. Como calculam, e
muito bem, eu não assisti aos factos relatados na história que se segue. Eles
foram-me revelados num contacto espiritual que mantive com um confrade nosso
que já não se encontra no meio de nós. Não posso revelar quem era porque as
visões que tive, apesar de bastante nítidas, quando se tratava de imagens do
rosto, apareciam-me como que esfumadas, escondidas entre rolos de nuvens
bastante compactas. Parecia que ele tinha medo de ser reconhecido, ou não o
queria ser. A história que o
nosso extinto confrade me contou foi a seguinte: duas quadrilhas rivais de
traficantes de droga das favelas do Rio de Janeiro envolveram-se em guerra
aberta nos morros que rodeiam a cidade. Quando a polícia chegou foi atirando
a tudo quanto mexia e até ao que estava estático. No meio desta guerra
muitos inocentes pereceram e entre estes uma menina de 12 anos, filha de um
agente da Polícia Militar (PM), que regressava da escola e se dirigia ao alto
do morro para casa da avó, onde ia almoçar. Não foi possível
identificar a arma que matou a menina, mas verificou-se que foi disparada a
cerca de cinco metros pelas costas quando ela passava precisamente em frente
ao ponto em que o pai estava abrigado. Este, ao ver a filha cair sangrando,
esqueceu todas as precauções e correu para a filha que não conseguiu
alcançar, pois foi atingido por um tiro que entrou por baixo do braço
esquerdo indo a bala alojar-se no coração. A bala que atingiu a menina foi
disparada pela mesma arma que disparou o tiro que matou o pai desta. A menina
foi levada para o hospital em estado de coma enquanto o pai foi conduzido ao
necrotério. A responsabilidade
pelos dois tiros foi atribuída a três suspeitos. O primeiro era
Erivaldo Garcia que, por casualidade ou mera ironia do destino, era também um
agente da PM indiciado por envolvimento com o tráfico de drogas e outras
tramóias bem mais graves. Quando interrogado afirmou que se encontrava
abrigado alguns metros abaixo do local onde se encontrava o colega. Apesar
disso afirmou não ter visto nada. O segundo era
Argemiro de Freitas, um conhecido traficante que afirmou não ter conhecimento
de nada. Estivera toda a manhã no alto do morro vigiando os movimentos da PM
o que foi confirmado por várias pessoas, incluindo a avó da menina. O terceiro suspeito
era Alceu Xavier, um motoqueiro que trabalhava com moto-táxi. Não se lhe
conheciam ligações com os grupos de traficantes, mas já havia sido preso por
pequenos roubos na prática dos quais nunca usara armas de fogo. Casualidade ou não,
a verdade é que dois dias depois de interrogados os três suspeitos morreram
também. Alceu Xavier morreu num acidente de moto quando foi bater com
violência de frente com um autocarro. Erivaldo Garcia e Argemiro de Freitas
morreram numa troca de tiros entre os traficantes e as forças da ordem quando
a PM fez mais uma incursão na favela. Quando os três
chegaram ao paraíso o agente da PM tentou envolver-se em pancadaria com o seu
colega, mas sem resultado. Contudo, a bulha foi enorme o que atraiu para o
local uma figura indefinida com uma altura enorme e que parecia ter grande
autoridade ali. Perante a presença desta personagem os ânimos acalmaram-se e
a estranha figura exigiu que lhe contassem o que se passava. Todos iam falar ao
mesmo tempo, mas com um gesto o estranho ser impôs silêncio e de seguida
ordenou ao agente da PM, pai da menina, que falasse. Este relatou todos os
factos de que tinha conhecimento. Quando terminou, o estranho ser que parecia
ser quem mandava ali dirigiu-se à menina e disse-lhe: tu podes ir-te embora,
a tua hora ainda não chegou, vai ter com a tua mãe que está à tua espera.
Dito isto, duas figuras que pareciam anjos desprenderam-se da enorme
personagem e envolvendo a menina levaram-na dali. Depois, dirigindo-se
a um dos quatro disse-lhe: tu vais para o Umbral. Na tua vida sempre
praticaste acções que devias combater. Lá ficarás até que te arrependas de
todo o mal que praticaste e encontres quem queira de lá tirar-te. Mal estas
palavras foram pronunciadas duas medonhas figuras negras se desprenderam do
estranho ser que parecia presidir ali a tudo e arrastaram o condenado. Os outros ficam aí
onde irão ser preparados para nova encarnação. Dizendo isto, a estranha figura
afastou-se e a cada passo que dava aquilo que parecia ser o seu corpo tomava
as mais estranhas formas. Então os bons não
vão para o céu e os maus para o inferno? Como é possível este encontro aqui?
– perguntei eu admirado ao nosso ex-companheiro. Qual quê, meu amigo!
Essa do céu e inferno não passa de uma lenda. Ou antes, esses dois lugares
existem realmente mas estão concentrados num só e é lá nesse mundo em que tu
ainda vives. No inferno estão aqueles que não têm uma casa para morar, dormem
nos vãos de escadas ou debaixo de pontes e viadutos e quantas vezes se cobrem
apenas com cartões. Não têm uma sopa para comer, nem um médico para os tratar
quando estão doentes e se o Inverno for rigoroso, morrem de frio em qualquer
canto. No céu estão todos aqueles que têm em abundância o que falta aos
outros e que, depois de gastarem fortunas em bens que não lhes fazem falta,
ainda lhes sobra dinheiro para depositarem fortunas nos cofres dos bancos. Então o que é o
paraíso? – voltei eu a perguntar. O nosso ex-confrade,
enchendo-se de paciência, lá me foi explicando: o paraíso é um lugar para
onde vão todos aqueles que terminam o seu ciclo de vida e vêem para aqui para
se prepararem para um novo ciclo. Todos nós praticamos acções reprováveis que
representam dívidas que vamos acumulando e que teremos que pagar – é por isso
teremos que voltar à vida para as pagar. Alguns, quanto mais vezes reencarnam
mais dívidas contraem e voltam à vida para sofrerem sempre. Outros vão
melhorando a cada encarnação até que, atingindo a perfeição, ficam aqui para
ensinarem e cuidarem daqueles que precisam ser ensinados e cuidados. Dizendo isto o nosso
ex-confrade calou-se e afastou-se sem se despedir. Foi neste momento
que eu acordei ainda assustado com o sonho que tivera. No outro dia, a
menina que estava no hospital saiu de coma e sorriu para a mãe que, sentada a
seu lado, chorava. Pronto, agora é só fazer um relatório dizendo-nos quem foi
condenado a ir para o Umbral. Devem explicar o significado deste sonho e
dizer-nos o que é o Umbral. Podem dizer tudo o que valorize a solução. |
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© DANIEL FALCÃO |
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