|
PÚBLICO – POLICIÁRIO Publicação: “Público” Coordenação: Luís Pessoa Data: 2 de Outubro de 2011 |
|
|
|
Campeonato Nacional 2011 Taça de Portugal 2011 Prova 1: Tradicional +
Múltipla Prova 2: Tradicional +
Múltipla Prova 3: Tradicional +
Múltipla Prova 4: Tradicional +
Múltipla Prova 5: Tradicional +
Múltipla Prova 6: Tradicional +
Múltipla Prova 7: Tradicional +
Múltipla Prova 8: Tradicional +
Múltipla Prova 9: Tradicional +
Múltipla Prova 10: Tradicional +
Múltipla |
CAMPEONATO NACIONAL 2011 TAÇA DE PORTUGAL 2011 PROVA Nº
10 (TRADICIONAL) OS
ENIGMAS DA TRIBO DESAPARECIDA Autor:
M. Constantino Na distância do
tempo, algures, isolada do conhecimento humano, a tribo, duas dúzias de
viventes, existiam na certeza única do dia-a-dia. Na sua geografia havia o
sol que se abria lentamente nas terras de cultivo primitivo, incidia na
aldeia até se esconder sobre a montanha intransponível. Água, terra, céu,
luz, escuridão… para além o reino dos espíritos na voz do trovão, na ira do
raio. O mar, calmo, que
recebia as águas doces do rio, não impedia verões quentes, invernos
rigorosos. “Vieram do mar…”, era a lenda. Mais baixos que altos, robustos,
cabelos negros, cobriam-se de peles. Desconheciam o ler; contar eram os dedos
das mãos. Tinham nomes próprios que esqueciam em troca de epónimos consoante
os actos ou configurações. Viviam Os homens eram
caçadores, pescadores e agricultores, segundo a aptidão. Para eles, o “rito
de iniciação” sexual celebrava-se aos treze anos. Na “iniciação” de Jorge – a
própria mãe se ofereceu para o ritual – a tribo aguardava, silenciosa. O
iniciado apareceu corado, oscilante, mas sorridente; a iniciadora fez sinal afirmativo
e o festim surgiu. Vibrou pela
madrugada com a notícia do nascimento de dois rapazes. Gémeos iguais,
escorreitos; da mesma mãe, sol a despertar, nasceu uma menina diferente dos
irmãos e dos demais. Beatriz – murmuraram. Aurora – ditou o chefe Mentor,
apontando o horizonte ardente. Aristarco, o juiz, afastara-se. No areal
húmido, pegou um galho, riscou um traço horizontal ao mar; dois outros, de
iguais dimensões, formaram um triângulo. Inspirado, lançou
sobre este um outro igual mas invertido, resultando uma estrela de seis
pontas. Espetou doze pequenos galhos, um em cada ângulo ou duplo ângulo de
intercepção das duas figuras. Mentor aproximou-se, interrogativo. Aristarco
adiantou-se – Já somos bastantes, 26 exactamente; esta é a nova aldeia. Doze
palhotas, quatro em cada lado dos triângulos. Vais numerá-las, com o número
um na palhota esquerda da base do primeiro triângulo e de modo a que a soma
da numeração de cada um dos lados dos triângulos seja sempre 26. Um problema
para ti! Problema? Algum tempo, riscos e Mentor sorriu: Tudo como queres!
Mais… a soma dos números das pontas da estrela é 26! Aristarco rejubilou,
clarificando que cada palhota seria dividida ao meio. Todas as portas,
voltadas a nascente. A tribo limpou o
terreno, colheu paus, colmo e amassou barro para tapar as fendas. Quando
pronta a habitar, Aristarco e Mentor ocuparam a n.º 1; Jorge, o iniciado, a
12, com Graçaim; as restantes distribuídas conforme as idades. À parturiente
e gémeos coube a ponta norte da estrela. Relevam, entretanto, a façanha de
Albano ao ousar enfrentar um urso com duas setas nos olhos. A fera, cega, na
ânsia de arrancá-las, enterrava-as mais a cada movimento, devido à ponta em
forma de “V” invertido. Destro, cravou a lança mortal. Pela dificuldade de
construção e utilidade, as setas eram rigorosamente guardadas com a lança, as
armas exclusivas dos caçadores. Os pescadores usavam
tridentes. Inquietante o caso dos gémeos, um dos quais era um mentiroso
incurável; contagiava o irmão e punha a aldeia em alvoroço com falsos
acontecimentos. Aguará, caçou uma raposa branca; da pele fez um gorro que
usava dia e noite e ofereceu a Aurora a restante. Esta começou a negar-se a
Jorge a favor daquele. Carla, 16 anos normais, inesperadamente recusou
trabalho e homens; rodeou-se de bichos mortos e, qual Sibila, clamava
tragédias. Enjeitada acolheu-a Boto, a quem não incomodavam os gritos; mas
não suportou o cheiro e procurou outro poiso. Sibila, acendeu uma
fogueira a 9 passos da palhota. Sentada, de pernas cruzadas, com um felpudo e
feio gato preto ao colo, balançava-se sobre o lume, gritando que a palhota ia
arder. Mentor tentou intervir, inutilmente. Através da porta aberta viu
lenha, peles velhas e carcaças pestilentas. Encaminhou-se para casa.
Subitamente, as chamas devoraram a palhota. Testemunhas alegam que Sibila não
fez qualquer gesto suspeito. Levantou-se, gritou e desmaiou. Aristarco
visitou o local e ordenou a expulsão da moça para a floresta. Nomeado
Alvanéu, Jorge montou nova palhota. A paz voltou. O tempo decorreu até
à “iniciação” dos gémeos e reajustamento habitacional. Aristarco e Mentor
começaram por estes que ninguém conseguia diferenciar, sentados à porta da
palhota. O juiz, encarando-os, perguntou de surpresa: Qual nasceu em último?
Eu nasci depois, disse um deles; o outro respondeu: Eu nasci primeiro!
Aristarco ponderou e, dirigindo-se ao primeiro, sentenciou: Tu, Júlio, és o
Pábulo, terás o cabelo rapado e viverás na 5 com o Albino, o dos incisivos
salientes, teu irmão Raul com Pendão na palhota de costas à de Alvanéu, que
manterá habitação com Amaro, o Graçaim. Aurora não mudará. Na palhota mais
distante à sua, fica Ursídio, vizinho do Bisonte. No n.º mais baixo da
lateral Este do primeiro triângulo ficam o delgado Lavanco e o grande e gordo
de barriga como um sapo, donde vêem, de um lado a entrada da palhota do
Jaime, o Cafunda e o dos halos escuros em volta dos olhos; do outro,
descortinam Cláudio, sentado à porta da habitação. A 9 é ocupada por Daniel,
matador da raposa branca e Artur, o Alfaraz. Na base do triângulo
invertido, na palhota Este, habitam o arisco Donfafe e Nuno, o das pernas
tortas, seguindo-se a de Luís e o grande e gordo Carlos; na última palhota a
Oeste vivem o Paulo, aquele que acolheu Sibila e Mário, o armeiro Erco. Para
coabitação, Aurora recusou a alegre Tono; e Rosa, a Rubi, ficou com a pequena
e gentil Garnisé. Ana, de poucas falas, era incompatível com a faladora
Lúcia, a Gralha, amiga da Rosa e Alice. As três últimas ocuparam a última
palhota disponível e Muda fez companhia a Marta. O juiz citou: Caçadores –
Alvanéu, Aquará, Alfaraz, Bisonte, Castor, Panda, Ursídio, não
respectivamente, Daniel, Diogo, Cláudio, Jorge, Artur, Albano, Albino;
pescadores – Amaro, André, Júlio, Luís, Mário, Raul, sem ordem, Epígono,
Erco, Garçaim, Pábulo, Lavanco, pendão; agricultores – Boto, Cafunda,
Cambeta, Donfafe e Untanha ou, sem ordem, Carlos, Hélder, Jaime, Nuno e
Paulo. Citou as mulheres, recolheu as conchas onde arabescara os nomes,
ápodos e números habitados. Inverno chegado,
Alvanéu percorreu a aldeia, barrando buracos nas palhotas. Alvorecera.
Aristarco e Mentor contemplaram o manto branco da geada que cobria o solo da
aldeia. Rastos inidentificáveis assinalam que o frio não apagara o fogo
genital. Caminharam até ao centro… Um grito veio da palhota de Aguará; a
porta abriu-se e Aurora caiu nos braços de Mentor. Aristarco entrou
para encontrar Aguará na cama, frio, com um buraco profundo no alto da
cabeça, sangue e restos de crânio no chão, atrás; junto da parede, o gorro
rasgado ao centro com um golpe. Não havia armas à vista, as próprias do
caçador jaziam invioláveis. A luz de um pavio, mergulhado em resina na
concavidade de uma pedra, fora a única testemunha. A palhota trancada
por dentro, a mulher dormira profundamente aos pés do morto; acordara para o
horror e era insuspeita. As pegadas, impossíveis de identificar na geada, iam
da palhota 7 à 3, da 12 à 9, desta à 2 e à 3, ou no sentido contrário ao
indicado. Quem? Como? Aos
leitores o ensejo de identificar nomes, ápodos, moradas dos viventes e os
enigmas da tribo… |
|
|
© DANIEL FALCÃO |
||