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DESAFIOS POLICIÁRIOS |
HOMENAGEM
A ZÉ - VISEU |
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TRÁGICA MATANÇA Autor: Mário Campino
[Homenagem
ao ZÉ - VISEU (Gustavo Barosa), um Amigo de sempre! Dedicado a Domingos
Cabral (“Inspector Aranha”/ “Zé dos Anzóis”), responsável moral pelo
reaparecimento do Avô Palaló, cuja última história escrita data de Dez/91.] Um largo… O largo, demasiado
nu, não tem alma; mas tem nome… Praça de República! Ali, onde, outrora, por ironia,
se passeava El-Rei D. João I, frente ao então existente Paço Real. Aos domingos, é a
“praça dos homens”. Nova modalidade da “venda de escravos”, onde os
trabalhadores rurais se submetem ao tormento da escolha e ajuste de jorna. O
aluguer do corpo; um ajuste sem ajustantes – só o lado forte decide. Um jogo
de pega ou larga, que se aceita, sem alternativa! Ele, o Manel, 16
anos, baixo, mas entroncado, viera à “praça” pela primeira vez. Ficara-se a
tentar compreender e vira-se metido num grupo “p’ró Sr. João Andrade”. Outro
não tivera a mesma sorte: “Tu, nã, Grilo. Tiraste dia p’ra fazendeiro… ele
que ta dê trabalho. O mê rancho nã é o da Joana!” “Mas, sê J’ão
Cebola, com’é ca vou dar de comer ós ganapos? Tenha dó, home…” O capataz não cede.
Zé Grilo andou por ali, tonto, a oferecer-se. Uma lei não escrita, impiedosa,
afastava-o, como se tivesse lepra… Hora chegada,
arrasta-se para fora do largo… ranho e lágrimas misturam-se-lhe no rosto
tisnado. Duas mãos caem-lhe nos ombros. São o Manel e o Toino da Bica: “Anda…
bebes a milhadura, quê nã bebo”, diz o Manel. O destino tem
caprichos! A semana decorria. Toino da Bica bufava e ia pensando para
consigo: “Su parente Delfina m’abonasse a burra, dós caxotes na bunda, a
ganfar sardinhas à porta do friguês!” Conseguira a burra e uns trocos, com
juros. Trocara a burra por mula própria… e depois viera a carroça.
Aventurou-se em outras áreas. Sorria à sorte. Zé Grilo,
entretanto, andara léguas, qual rafeiro abandonado. Em peregrinação, desceu a
Rua das Faias. D. Rosa Vieira, recém-viúva, carregada de luto, tentava
esconder a solidão, raspando as urtigas do abandonado jardim. Zé estacou.
Abriu o pequeno portão de ferro e, com um seco “cum lincença”, tirou a enxada
das mãos da absorta senhora, que ficou a vê-lo atacar as ervas, com genica.
Recatada, foi-se elucidando. Trouxe pão e queijo. Zé encontrou coragem para
acenar negativamente, concentrando-se em acabar a limpeza. “Vossemecê nã
m’agêta on canivete p’abicar as canas
pós cantêros?” Demorou um pouco a procurar e estendeu-lhe uma faca de mato,
comprida e folha larga, que tirou de um coldre. Zé olhou, com apreço, e
exclamou: “Catita, sim sinhora.” Atirou-se à tarefa, faca na dextra, cortou e
afiou as canas, espetando-as. Quando o sol começou a esconder-se, D. Rosa aguardava
com um saco, onde colocara batatas, feijão, bacalhau e algumas moedas. Zé
pegou no saco e recusou o pagamento: “Nã s’ôra! Nã fuim ajustado.” E
escapava-se, comovido. D. Rosa fez-lhe frente: “Escuta, Zé! Amanhã,
se quiseres, continuas. Depois, vamos recuperar a horta, podes plantar couves
para ti… Leva a faca – era de meu marido. Fica para ti, mas não a percas! E
vamos combinar uma jorna…” Zé correu para casa,
abafando o alvoroço interior. D. Rosa faria mais: ensinou-o, pacientemente, a
ler e escrever, a comportar-se.
Facultou-lhe a biblioteca do Doutor Vieira. Ficou viúvo, quando os
filhos estudavam, a expensas de D. Rosa. E, quando esta, por sua vez, foi ao
encontro do Criador, Zé Grilo mal acreditou que a benfeitora, sem herdeiros
directos, lhe deixara todos os seus bens. E o Zé, a quem o rapazio apontava
como “o homem da faca”, passou a ser o “Sôr Zé Grilo”. E o Manel? Semana a findar.
Enxada acima, enxada abaixo, na terra dura. Chico Abegão, perto,
andara de olho no moço, com uma proposta na cabeça. “Auga! Auga! Atão?”, reclamou uma voz rouca. “Aí vai… nã morres
da seca…” A “Julha Carapinha”, de cântaro à cabeça e mãos nos quadris,
airosa, trigueira, distribuía água. Aproximou-se do Abegão, a encher o púcaro
de lata, entornando-o, a olhar para o Manel: “Tamém queres, Manel?” “Ná quero… quero a
ti!”, respondeu, corando. A rapariga replicou, de imediato: “Ora… ora… o
Palaló! O frango apensa ca tem crista de galo!” E foi-se, enchendo o ar, com
voz cristalina… “Rais partam a
cachopa”, exclamou Chico Abegão. E aproveitou a embalagem para desafiar:
“Olha lá… vais comigo p’ra Salvaterra? O sô J’ão Andrade vai meter searas…
Abona p’rá gente ma leira p’ró melão… s'arranjar uns patacos… Que dizes?”
Manel reflectiu um só instante: “Conte comigo, sô Chico.” Dois anos depois, as
searas de melão deram-lhe para a compra da terra das Milheiras. Chico Abegão
morreu, em glória, nos cornos de um toiro tresmalhado. João Andrade
convidou-o para capataz… depois feitor. Casou com a Júlia. Foi pai… avô: o
Avô Palaló. Chega a patrão.
Rendeiro nas Ferrarias, proprietário do Foral Velho, Milheiras. Rosto grave e
coração generoso! Íntegro, inteligente, observador e intuitivo… era
respeitado. Quarenta anos
depois, o velho largo era jardim público. Avô Palaló olhava-o, de longe. A
mente, essa implacável máquina do tempo, leva-o do passado distante ao
recém-pretérito, ensombrado por fatal nuvem negra. Toino da Bica, com
estúpida cupidez, alheio a conselho, metera-se em águas turvas, que o
arrastaram na enxurrada com o Zé Grilo, o confiante fiador. Toino refugiou-se
na bebida e voltou às sardinhas. Zé, pleno de angústia, abalou para Lisboa.
Perdera um filho. O outro, estudante de Engenharia, ia saber o lado amargo da
vida. Avô Palaló, ao
voltar de uma estadia na Herdade das Ferrarias, soube dos acontecimentos. O
Casimiro escrevera-lhe, entretanto, para anunciar que o Zé vivia com o filho.
Este deixara o curso e empregara-se numa tinturaria industrial de têxteis,
algures em Xabregas. No dia seguinte,
partiu ao encontro do Casimiro, para procurarem o Zé Grilo. Encontraram-no,
magro e envelhecido, no armazém da empresa, onde criara simpatias, esperando
a saída do filho. Avô Palaló descortinou, por debaixo do casaco puído, a
inseparável faca, símbolo único de saudosa recordação. Comoveu-se e abraçou o
amigo, lamentando a separação do trio. Pediu que se lhes juntasse, na matança
do porco. Zé, de cabeça baixa, cismático, acabou por ceder. Para o Avô, fora
um passo positivo. Verão que se
extingue, Outono desperto… e é chegado o grande dia. No mundo rural, a
matança do porco é dia de festa. Ainda o sol se levantava, preguiçoso, por
detrás das árvores a despirem as folhas, já o Zé Maria afinava a
gaita-de-beiços. Zefa aprontara, na sala de entrada, sobre a grande mesa,
garrafas de aguardente e abafado, figos secos e torresmos, para o
“mata-bicho”. No quintal, o Manel Hortelão empilhava carqueja, acendera a
fogueira de cepas para o braseiro das assaduras, que antecede o almoço. Broa,
canecas de barro para a água-pé (13º, para aquecer!) sobre a tripeça. E,
quando Rita chegou, com dois canjirões cheios, Joaquim Carrapato, o matador
de serviço, que já afiara a faca” matadeira”, aproximou-se: “Memo a calhar…
Enche aí inté às bordas! Tô cá com uma
gana!” Bebeu e foi prender o chambaril na figueira grande, para pendurar o
porco, depois de morto. Avô Palaló foi ao pocilgo dar uma palmada no dorso da
vítima em perspectiva, como que a despedir-se. Surgiram o Firmino e o
compadre Maximiano, a Emília e o Amândio, todo encasacado. O Venâncio e o
Casimiro chegaram, enfim, com o Zé Grilo – Zé e a sua faca. Este lançou um
tímido “ora viva, pessoal!” Aqueles distribuíram abraços e gargalhadas.
Quando o Toino da Bica apareceu, um tanto “carregado”, da passagem pelas
tascas, para ganhar coragem, ficou-se à porta, a mastigar uma cabeça de alho.
O vizinho Serôdio empurrou-o para dentro, murmurando entre dentes:
“Havera qu’im t’abrisse os cornos!” Foi Zé Grilo quem
salvou o momento de embaraço, estendendo ao Toino um copo da “rija”. Este
retribuiu com um punhado de passas. “Tudo em paz”, pensou o Avô, satisfeito.
E, em voz alta : “Vamos ao bicho, rapaziada!” “Tira uma febra para
dois… para mim e o Toino”, pede o Zé Grilo. Recebe a carne, o Toino
polvilha-a com sal e é posta nas brasas. O Zé tira a faca do coldre, retira o
papel vegetal que a protege e queima-o nas labaredas da carqueja sobrante.
Assada a carne, tira-a com uma vide e volta-se para o Toino: “Que lado queres?” Toino responde: “O
mais gordo!” E, sem se importar com a quentura, pega no pedaço de carne escolhido.
O Zé experimenta o fio da faca no polegar esquerdo, segura a outra ponta da
febra, queima-se, lambe os dedos e volta a agarrá-la, utilizando a faca de
baixo para cima, como um canivete. Lentamente, corta a carne em duas metades.
Comem com deleite. Toino devora a sua parte. Pega numa das canecas que o
Serôdio acabara de atestar, bebe e deixa-a cair, com um grito… um urro de
vómito não consumado. Vacila, com a respiração estertorosa. Ia cair, se o Avô
Palaló, que observara com agrado a partilha da carne, o não amparasse. Em
convulsões intensas, foi levado para um quarto e estendido na cama. As mãos
estavam frias, os olhos muito abertos, de pupilas dilatadas pela perturbação
respiratória. “Ca ganda
carraspana”, comentou o Serôdio, que não morria de amores pelo Toino. O patrão Palaló
pediu que trouxessem café bem forte. Mas, quando chegou, foi impossível
dar-lho a beber – o homem espumava e debatia-se, como de crise epiléptica.
Sossegou, depois, abatido pelo esforço. Sombriamente, o dono de casa pediu
para saírem e mandou o Manel Hortelão buscar o Dr. Chico Godinho, muito
depressa. Foi encontrar o Zé Grilo, junto do tanque grande, enxugando as
mãos. Este perguntou pelo Toino e comentou: “Começou muito cedo a
enfrascar-se no álcool…” Foram os dois ao
quarto. Toino estava em coma. E, quando o Dr. Chico chegou, meia hora depois,
limitou-se a anunciar: “O homem está morto, Manel! É preciso chamar o
Sargento Ambrósio.” “Intoxicação
alcoólica?”, indagou o Sargento, quando chegou. “Possível, mas não
certa. É preciso tirá-lo daqui, para uma autópsia. Cheira a vinho e alho que
baste, para descortinar qualquer outro cheiro. Quero saber o que significa
aquela banha curada, na boca do morto.” Naturalmente que
ainda se comeu e bebeu; porém, sem fome, sem sede, sem alegria. E, quando o
Avô Palaló, na manhã seguinte, foi ao tanque, para mudar a água, como
habitualmente, enterrou duas pequenas rãs, que encontrou mortas, na pequena
pia, debaixo da torneira de escoamento. Ouviu a voz do sargento Ambrósio, que
se aproximava com dois companheiros: “Olhe, Manel, estes senhores são da
Judiciária. Vêm fazer uma investigação…” “Não há nada a
investigar. Eu sei o que se passou”, interrompeu o Avô Palaló. E vós, leitores,
também sabeis? Aguardam-se os
vossos relatórios, fundamentados, como sempre. { publicado na secção “Policiário” do jornal “Público” de 17 de Outubro de 2004 } Desafios policiários de MÁRIO CAMPINO (ver
também: M. CONSTANTINO) |
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© DANIEL FALCÃO, 2005 |
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